Histórias


"Por causa do Tefilin"

1.

Hershel nasceu numa cidadezinha, Dubova, perto de Munkatch, no último ano da Primeira Guerra Mundial. Munkatch era então parte da Hungria, mas depois da guerra toda a região passou a fazer parte de um novo país, a Checoslo­váquia.

Nos anos entre as duas guerras mundiais, bem como antes, Munkatch tinha tido uma comunidade judaica florescente, famosa por seus rabinos e eruditos, que tinham grande influência sobre os judeus húngaros e checos.

Hershel foi criado nesse espírito. Estudou na Yeshivá de Munkatch até que chegou a hora de começar a pensar em casamento e estabelecer seu próprio lar sobre os fundamentos de Torá e mitsvot, como outros jovens da sua idade. Mas os estrondos da Segunda Guerra Mun­dial lançaram uma nuvem escura sobre os seus planos. Em pouco tempo, as hordas de Hitler começaram sua marcha de conquista e destruição. Uma das primeiras vítimas foi a Checoslováquia, que Hitler invadiu com o consentimento da Inglaterra e da França, na esperança de que isto satisfizesse o apetite por poder e conquista de Hitler.

O exército de Hitler invadiu a Checoslováquia poucas semanas antes de Pessach (1939). Depois da invasão, o país foi dividido entre a Alemanha, que ficou com o maior pedaço, e Polônia e Hungria, que receberam áreas próximas às suas fronteiras.

A região de Munkatch foi então devolvida à Hungria. O doutor Sandor Fried, prefeito judeu de Munkatch, recebeu formalmente o comandante militar húngaro que entrou na cidade com seus soldados, e lhe deu a “chave” da cidade.

A princípio, o governo húngaro não foi inamistoso para com os judeus. Mas não demorou muito para que a situação dos judeus piorasse sob a influência da política antijudaica alemã, que encontrou prontos colaboradores nos anti-semitas húngaros.

Veio o dia terrível quando, em 1o de setembro de 1939 — duas semanas antes de Rosh Hashaná — o exército alemão penetrou na Polônia, começando a Segunda Guerra Mundial.

Depois da Blitskrieg alemã e da vitória fácil sobre a Polônia, Hungria, Romênia e Bulgária nem tentaram oferecer resistência. O exército alemão ocupou esses países sem nenhuma luta. A Iugoslávia foi o seguinte.

Em todos aqueles países os judeus de repente se viram encurralados: não havia para onde fugir. Todas as portas estavam trancadas diante deles; sua sentença estava selada. O resto do mundo olhava sem ligar a mínima.

Sabendo que o mundo pouco ligava para o que acontecesse aos judeus da Europa, Hitler pôde levar a cabo seu plano assassino da “Solução Final”. Os judeus de todos os países que tinham caído nas mãos dos alemães eram sistemática e cruelmente cercados e mandados em vagões de carga e de gado superlotados para vários campos de concentração. Crianças e velhos, bem como todos os que não pudessem fazer trabalho escravo, eram os primeiros marcados para as câmaras de gás.

2.

Hershel estava entre os “sortudos” que foram mandados para fazer trabalho escravo para a máquina de guerra alemã. Era trabalho escravo mesmo; forçados sem piedade, com excesso de trabalho e subalimen­tados, muitos não sobreviveram. Porém, a despeito de todas as indes­critíveis dificuldades, o espírito judaico não pôde ser quebrado. Os estudantes de Yeshivá, como Hershel, e a maioria dos outros judeus dos campos, se recusavam a comer comida trefá (não-casher). Até nos dias mais frios de inverno não tomavam a sopa quente de carne; sempre que possível, trocavam-na com escravos não-judeus por um pedaço de pão. Sua alimentação diária era pão e água, e isso numa quantidade que mal chegava a ser suficiente para sobreviver.

Desde o começo, Hershel decidiu que, houvesse o que houvesse, nunca se separaria dos seus tefilin, que ele conseguira contrabandear para dentro do campo entre os seus poucos pertences. Estava decidido a pôr seus tefilin sempre que tivesse oportunidade. Logo seus companheiros ficaram sabendo que ele tinha um par de tefilin, e enquanto alguém ficava de guarda, os tefilin passavam apressadamente de mão em mão. Um dos guardas do campo, para quem Hershel costumava passar sua sopa e pedaços da ração de carne, retribuía o favor informando-o quando ia acontecer uma busca nas barracas. Hershel então escondia seus tefilin do lado de fora. Certa vez, escondeu os tefilin na neve e teve muita dificuldade para encontrá-los. Ficou louco, mas encontrou-os, e soube que D'us estava com ele. Os tefilin lhe davam o mais forte encorajamento para prender-se à sua fé. Sentia que enquanto tivesse seus tefilin sobreviveria aos seus atormentadores.

3.

Quando Hitler começou sua guerra contra a Rússia, os países ocupa­dos, inclusive a Hungria, tiveram de juntar forças com os alemães. O campo de trabalhos forçados de Hershel recebeu ordens de acompanhar as divisões alemãs e húngaras, que invadiram a Ucrânia. Os trabalhadores escravos tinham de cavar trincheiras para esses soldados bem na frente de batalha, sob fogo constante da artilharia russa e ataques aéreos. Hershel sempre tinha consigo os seus tefilin — o shel rosh em um bolso, e o shel iad noutro.

Uma vez, em Kiev no ano de 1943, quase perdeu novamente seus tefilin. Já há algum tempo, seu destacamento de trabalho estava sendo mandado para fora para o trabalho diário e voltava para o campo. Todos os dias, antes de sair para o trabalho, Hershel escondia seus tefilin depois de rezar. Um dia, em agosto, fez o mesmo de sempre, mas de repente sentiu-se preocupado de deixar seus tefilin. Correu rapidamente de volta para o esconderijo e botou os tefilin nos bolsos, levando-os consigo para seu local de trabalho. Grande foi o seu alívio quando soube que seu coração tinha lhe falado a verdade, pois aconteceu que tiveram de permanecer no novo local durante seis semanas! Assim Hershel pôde continuar a rezar com seus tefilin, possibilitando a outros judeus fazerem o mesmo.

Assim passaram-se os horríveis anos da guerra de 1942-1944, quando o perigo rodeava Hershel diariamente. Viu tantas vezes como a Divina Providência o protegia, e seu coração estava certo de que seus tefilin o tinham salvado de muitos perigos.

4.

Chegou finalmente o tempo em que as divisões armadas alemãs começaram a retroceder sob o peso da contra-ofensiva russa. Depois da derrota alemã em Stalingrado, em fevereiro de 1943, e o fracasso da tentativa alemã de fazer uma nova ofensiva em julho daquele ano, o exército alemão foi firmemente empurrado para trás. Durante todo o inverno seguinte, tropas alemãs cansadas, congeladas e famintas foram obrigadas a retroceder com pesadas baixas, arrastando com elas os remanescentes dos trabalhadores escravos sobreviventes, entre eles, Hershel.

Em março de 1944, Hershel encontrava-se nos Montes Cárpatos. A Romênia e a Hungria ainda estavam ocupadas pelos alemães. As derrotas que as tropas nazistas tinham sofrido as enraiveceram, e descarregavam sua raiva e frustração mais do que nunca nos indefesos judeus. Dia após dia, carregamentos destas infelizes vítimas eram mandados para as câmaras de gás nos vários campos de concentração.

Percebendo que a situação estava ficando muito desesperadora, Hershel e seus amigos decidiram fazer um plano de fugirem e se esconderem nas montanhas. Conseguiram fazê-lo. Desapareceram nas florestas próximas em pequenos grupos, cavando bunkers onde pudessem se esconder.

Com um grupo de dez pessoas, Hershel encontrou um lugar adequado para seu esconderijo subterrâneo. Cavaram seu bunker sob uma montanha, cobrindo cuidadosamente a entrada, rezando a D'us para que ficassem a salvo até que os nazistas fossem esmagados e seu poder fosse destruído para sempre.

Durante o dia todos eles ficavam no seu túmulo restrito, mal podendo mexer-se. Patrulhas alemãs perambulavam pelas florestas e era perigoso aventurar-se a sair. Somente na escuridão da noite rastejavam para fora para esticar os membros e respirar um pouco de ar fresco. Então um do grupo partia corajosamente para procurar a casa de fazenda mais próxima para tentar conseguir um pouco de pão para que não morressem de fome.

A maioria dos camponeses locais mostrava-se compassiva com a situação dos perseguidos refugiados. Tinham ficado enojados com a ocupação alemã e suas crueldades desumanas, tendo de dar muito das colheitas conseguidas com esforço, e animais para alimentar os invasores. Agora que a sorte da guerra parecia se ter voltado contra os alemães, os camponeses esperavam que desaparecessem mais cedo ou mais tarde. Assim os camponeses não delatavam os refugiados judeus, e alguns ainda faziam a bondade de lhes dar comida.

Certa manhã, quando Hershel tinha acabado de rezar, e seus tefilin estavam sendo passados de mão em mão, de repente ouviram o latir de um cão e pesados passos se aproximando do esconderijo. Soldados alemães estavam de patrulha, com seus cães perseguidores. Naquele instante, os passos foram ouvidos bem em frente. Hershel e seus amigos congelaram de medo e prenderam a respiração. No instante seguinte, para seu horror, um enorme cão deslizou pela entrada oculta e apareceu bem diante deles.

Esperaram, ofegantes, o inevitável! Mal podiam acreditar nos seus sentidos quando viram o cão imóvel lá, parecendo desnorteado, como se não soubesse porque estava lá, e esquecendo tudo o que tinha sido treinado para fazer.

Hershel conseguiu sair do seu estado de choque, vendo que o cão tinha se virado para a saída, mas estava achando difícil movimentar-se naquele lugar confinado. Hershel fez um sinal para os seus amigos para que ficassem bem juntos, e com um empurrãozinho ajudou o “hóspede”, que não tinha sido convidado, a sair, no exato momento em que os “cães” nazistas armados lá fora estavam apitando para chamar seu camarada de quatro patas.

Logo os pesados passos dos soldados nazistas começaram a diminuir à distância. Hershel e seus amigos começaram a respirar mais livremente, e agradeceram a D'us pelo maravilhoso milagre de sua fuga.

“Aquele cão deve ser descendente daqueles cães egípcios que não afiaram suas línguas contra os escravos judeus que estavam marchando livremente para fora do Egito quando a hora da libertação da escravidão egípcia chegou para eles”, observou Hershel para seus amigos, quando se recuperaram do terrível pesadelo que tinham acabado de viver.

5.

Os dias e as semanas arrastavam-se lentamente. Hershel e seus amigos passavam os longos dias no apertado bunker, só ousando sair à noite para respirar ar fresco e para procurar comida. Rezavam longa e sinceramente — tinham bastante tempo. Também estudavam a Torá sem o auxílio de livros. Por sorte, os alunos de Yeshivá entre eles não tinham perdido a memória durante os anos de sofrimento. Tinham estudado bem na Yeshivá, e sabiam dizer de cor passagens completas de Chumash e Talmud e discuti-las detalhadamente. Para todos eles, era uma bênção a iluminar a escuridão de sua atormentada vida diária.

De vez em quando revezavam-se para se arrastar para fora do bunker para esticar os membros e se aquecer no sol de verão. Era um luxo perigoso, e tinham de ser muito cuidadosos. As noites, porém, eram ainda mais difíceis de suportar. De noite era muito frio nas montanhas. O bunker era apertado e desconfortável, e o sono era interrompido por pesadelos horríveis. Nunca paravam de pensar no que tinha acontecido com seus parentes mais próximos e mais queridos — pais, irmãos e irmãs e todos os judeus a quem o odiado Eichmann, sob as ordens de Hitler e Himmler, tinha deportado para Auschwitz, Treblinka, Theresienstadt e outros campos de extermínio.

Lentamente os dias foram ficando mais curtos e as noites mais longas. Hershel e seus amigos mantiveram suas esperanças, e não perderam a coragem. Nessa época, qualquer um deles que saía de noite à procura de comida no campo também começou a trazer a feliz notícia de que os alemães estavam sendo derrotados em todas as frentes de combate. Um novo raio de esperança começou a brilhar mais. Lembraram-se das palavras da Meguilá: Quando Haman começar a cair, cairá até o fim!

Por volta de Sucot (outubro de 1944) ouviram que unidades avançadas russas estavam se unindo aos guerrilheiros e intensificando suas atividades naquela região.

Finalmente chegou o dia em que Hershel e seus amigos encontraram-se frente a frente com esses guerrilheiros. Salvos finalmente! Que alegria!

Assim puderam finalmente sair do esconderijo que tinham agüentado durante mais de seis meses.

6.

A guerra ainda não tinha acabado e muitas áreas ainda estavam sob ocupação alemã. Mas a Romênia já estava nas mãos do Exército Vermelho desde agosto daquele ano, e centenas de refugiados judeus que tinham sobrevivido ao Holocausto foram para Bucareste, a capital. Hershel também resolveu procurar refúgio lá.

Ao chegar a Bucareste, Hershel encontrou rabinos refugiados, Rebes chassídicos que, com a ajuda da American Joint e outras organizações, estavam tentando restaurar a vida fragmentada da comunidade judaica e dos alquebrados refugiados — quebrados em corpo mas não em espírito. Cozinhas casher foram montadas, escolas de Torá para as crianças foram organizadas, bem como aulas de Talmud para adultos. Foram montados escritórios para ajudar os refugiados a procurarem parentes sobreviventes. Havia tanto o que fazer!

Hershel atirou-se com todo o coração ao trabalho assistencial. Recebeu a tarefa, junto com mais outros jovens, de irem a cidades, cidadezinhas e vilas à procura de crianças judiais para levá-las para Bucareste.

Nunca se esqueceria — contou depois — de um certo incidente, que o convenceu novamente da proteção especial que D'us lhe tinha dado pelo mérito dos seus tefilin.

Isso aconteceu quando ele, juntamente com um amigo, estava levando um grupo de crianças para Bucareste, de trem. O trem partiu de Debretsin e dirigia-se rapidamente para Grossvardein. No caminho, o trem fez uma violenta curva. Hershel estava de pé na plataforma aberta do trem, segurando com força sua pequena valise na qual guardava seus tefilin. Quando o trem fez a curva, perdeu o equilíbrio, e ao tentar se firmar, sua valise voou para fora!

Hershel ficou horrorizado. Durante todo os anos da guerra tinha guardado os seus tefilin arriscando a vida, e agora tinha-os perdido de repente!

Hershel disse imediatamente ao seu amigo que este teria de cuidar das crianças sem ele, pois ia descer na estação seguinte e voltar andando pela via férrea para recuperar sua valise com os tefilin. Depois seguiria para Bucarest no próximo trem.

Seu amigo tentou dissuadi-lo. “Aonde vai procurar sua valise?”, argumentou. “Quem sabe se a encontrará? Além do mais, é provável que consiga tefilin em Bucareste. Por favor, pense bem. Não faça isso.” Mas Hershel ficou firme na sua decisão.

Ele esperou e rezou para que a estação seguinte não fosse muito longe. Como em resposta à sua prece, as rodas do trem começaram a ranger e chiar até que pararam de repente. Um sinal vermelho tinha feito o trem parar no meio do caminho, até que a linha adiante estivesse livre para a composição poder continuar seu caminho.

Hershel não perdeu tempo. Aproveitou a bem-vinda oportunidade para saltar do trem, depois correu de volta pela ferrovia. Poucos quilômetros depois, localizou sua pequena valise à distância. Correu para ela, levantou-a e a abraçou, deliciado.

Hershel foi andando o mais rápido que podia de volta em direção a Grossvardein, passando por várias pequenas estações no caminho. Os trens não estavam circulando normalmente naquela época, e ele levou vários dias até que finalmente chegou a Grossvardien. Na estação ferroviária encontrou uma multidão bastante grande de refugiados que estavam esperando o próximo trem para Bucarest.

Hershel já ia subir no trem quando alguém lhe deu uma pancadinha no ombro e lhe segurou o braço, dizendo: “Hershel, não ouse ir para Bucareste.”

Era um amigo de Bucareste, que tinha acabado de chegar de lá. O amigo lhe disse que agentes secretos russos estavam à sua espera, mantendo guarda perto da sua casa. Vários jovens judeus ortodoxos ativos já tinham sido presos sob a acusação de estarem trabalhando contra o regime comunista, e desde então não se tinha mais tido notícias deles. Os russos tinham começado a estabelecer regime comunista na Romênia e em outros países “libertados” pelo Exército Vermelho, e a polícia secreta tinha começado a prender qualquer um de quem tivesse a menor suspeita de atividade “contra-revolucionária”.

Hershel pegou a mão do amigo e disse, grato: “Graças a D'us minha valise caiu do trem; se não tivesse sido isso eu estaria agora nas mãos deles...”

“De que você está falando?”, perguntou o amigo, admirado. “O que é que sua valise tem a ver com este negócio?”

“Estou falando sobre minha pequena valise com os tefilin. Venha, vou lhe contar”, respondeu misteriosamente Hershel, levando o amigo pelo braço.

Entraram na sala de espera e se sentaram num canto. Hershel contou ao amigo como tinha guardado seus tefilin durante todos os anos da guerra, e como tinha perdido sua valise com os tefilin quando o trem dera uma guinada repentina, obrigando-o a descer do trem para recuperar sua valise. Se aquilo não tivesse acontecido, teria chegado a Bucareste poucos dias antes, para cair bem nos braços da polícia secreta! “Está vendo? Os tefilin me salvaram a vida novamente!”

Seu amigo ficou silencioso e pensativo durante alguns minutos, depois disse, hesitante “Hershel, ainda não botei tefilin hoje. Posso usar os seus?”

“Com todo o prazer”, disse Hershel. Tirou os tefilin da valise e também um pequeno Sidur, e os deu para o amigo, dizendo: “Vá em frente. Estarei de volta dentro de alguns minutos.”

Hershel voltou depois de cerca de dez minutos, notou que os olhos do seu amigo ainda estavam molhados.

“Preciso lhe contar a verdade”, disse para Hershel, num tom de voz muito sério, e na sua voz havia um toque de profundo remorso, ao fazer sua confissão. “Desde que os alemães assassinos me mandaram para um campo de concentração, parei de botar tefilin. Os alemães tiraram nossos tefilin, fizeram tudo para quebrar nosso espírito. Quando fomos libertados, os poucos que tinham sobrevivido, a primeira coisa que muitos judeus pediram foi um par de tefilin para colocar; outros, inclusive eu, pediram comida. Eu nunca cheguei a botar tefilin novamente. Mas, de agora em diante, pode estar certo de que nunca mais vou deixar de botar tefilin”, concluiu com a voz entrecortada de emoção.

Ao se despedirem, o amigo de Hershel lhe disse: “Tudo acontece por Divina Providência. Você pensou que nosso encontro aqui foi planejado pela Divina Providência para salvar sua vida. Do modo como as coisas aconteceram — parece que eu tinha que encontrá-lo para me salvar também. Está vendo? Seus tefilin trouxeram você a mim, e você me levou de volta para os tefilin.”

* * *

Hershel vive agora nos Estados Unidos. É um respeitado homem de negócios e membro proeminente da sua comunidade. Como muitos outros sobreviventes do Holocausto, não gosta de falar sobre aqueles anos horríveis; as experiências são dolorosas demais para serem recon­tadas, e palavras não as podem descrever. Porém, conta prontamente a história dos seus tefilin durante o Holocausto e as muitas situações em que eles claramente lhe salvaram a vida. “Que os judeus saibam”, diz ele, “como apreciar a mitsvá de pôr tefilin diariamente. Afinal de contas, ela pode ser feita tão facilmente, e sem o menor sacrifício!”

Os Tefilin do Maguid de Mezeritch

O Ruzhiner Rebbe, Yisrael de Ruzhin, foi o bisneto do Maguid de Mezeritch. (O Maguid, Rabi DovBer, foi discípulo e sucessor de Rabi Yisrael Báal Shem Tov, fundador do Movimento Chassídico.)

O Ruzhiner Rebe tinha herdado o tefilin de seu bisavô, e quando o Ruzhiner Rebe faleceu, seus seis filhos todos desejavam seu objeto mais precioso. Os irmãos decidiram então tirar a sorte, e David Moshê foi o vencedor.

Passaram-se os anos. Rabi Avraham Yaakov, o filho mais velho do Ruzhiner Rebe, era então conhecido como o Rebe de Sadigura. Certo dia, o Rebe de Sadigura mencionou a seus chassidim que tinha desejado possuir o tefilin especial herdado por seu irmão, Rabi David Moshe.

Um jovem chassid revelou em voz trêmula: "Sabendo o quanto o Rebe tinha desejado o tefilin do Maguid, meu amigo e eu viajamos até a casa de Rabi David Moshe e às escondidas tiramos os pergaminhos das caixas de tefilin e os substituímos com pergaminhos perfeitamente casher. Não queríamos prejudicar o irmão do Rebe, e nossa única intenção era agradar o Rebe. Mais tarde nos arrependemos, mas agora que sabemos o quanto o Rebe tinha desejado o tefilin, decidimos contar a ele o que fizemos."

Os chassidim que ouviram esta confissão tremeram, sem poder acreditar. Como poderiam estes dois fazer algo tão reprovável? Por outro lado, se Rabi David Moshe continuava sem saber, então talvez os tefilin não lhe estivessem realmente destinados?

O Sadigura Rebe desempacotou os pergaminhos, examinou-os cuidadosamente, enrolando-os amorosamente em seu lenço de seda, e colocou-os de lado. "Vamos visitar meu irmão" - disse o Rebe.

Quando o Sadigura Rebe e seus chassidim chegaram a Potick, seu irmão recepcionou-os amigavelmente. Na manhã seguinte, Rabi David Moshe levou o irmão a um aposento reservado, onde rezariam juntos. Sobre a mesa estavam três pares de tefilin, lado a lado - Rashi, Rabeinu Tam e Shimusha Rabba. Um pouco mais afastado estava outro par de tefilin numa bolsa que o Sadigura Rebe reconheceu como o tefilin do Maguid.

Rabi David Moshe segurou o tefilin do Maguid com os olhos fechados em contemplação. Então suspirou e colocou sobre a mesa. Colocou seu próprio tefilin Rashi e começou a rezar. Em seguida, colocou os outros dois pares de tefilin.

Quando terminaram de rezar, o Sadigura Rebe perguntou ao irmão por que ele não colocara o sagrado tefilin do Maguid. Rabi David Moshe suspirou novamente. "Não os coloco desde uma certa manhã, em que os peguei e não senti que eram sagrados. Isso somente poderia significar que eu não sou mais merecedor de usá-los." Rabi David Moshe continuou, dizendo: "Quero que fique com estes tefilin. Tenho certeza que os merece mais do que eu.

O Sadigura Rebe disse: "Estes tefilin realmente são destinados a você." E continuou, dizendo ao irmão o que acontecera. Quando terminou, o Sadigura Rebe pegou seu lenço de seda e entregou-o ao irmão. "Tenho certeza de que assim que você trocar estes nas caixas, sentirá novamente que são sagrados."

Logo depois, Rabi David Moshe mudou-se para Tchortkow e tornou-se famoso como o Tchortkower Rebe. Quando sentiu que sua alma retornaria ao Criador, chamou seu único filho, Yisrael. "Estou deixando o tefilin do Maguid para você como herança. Preze-os, e guarde-os com carinho" - disse ao filho.

Rabi Yisrael colocava o tefilin do Maguid somente duas vezes ao ano, em Purim e na véspera de Yom Kipur. Nos outros dias, usava seus próprios tefilin. Durante a Primeira Guerra Mundial, Rabi Yisrael e sua família tiveram de abandonar sua casa em Tchortkow às pressas.

Na confusão que se seguiu, os tefilin foram deixados para trás. Rabi Yisrael ficou desolado, mas nada havia que pudesse fazer. Ele e sua família encontraram refúgio em Lvov. Quando os russos ameaçaram atacar Lvov, mudaram-se para Viena para esperar o fim da Guerra. Muitos anos depois, os russos foram expulsos da Galícia, e Tchortkow foi libertada. Embora tentasse, Rabi Yisrael não conseguiu voltar a Tchortkow para procurar o tefilin do Maguid.

Quando finalmente a Guerra terminou, Rabi Yisrael recebeu a visita de um prisioneiro de guerra judeu. O soldado tirou uma bolsa de tefilin de sua mochila e entregou-a a Rabi Yisrael. Carinhosamente, o Rebe beijou o tefilin. Com voz trêmula, ele disse: "Eu sempre soube que, de alguma forma, estes tefilin voltariam a minhas mãos. Você cumpriu uma grande mitsvá, devolvendo um item perdido. Onde o conseguiu?"

O soldado começou: "Eu estava servindo no Exército Russo. Quando estávamos perseguindo os austríacos, chegamos a Tchortkow. Eu estivera lá quando criança; meu pai era um chassid do Rebe. Reconheci a casa do Rebe e vi soldados que a estavam saqueando. Entrei. Pude sentir que um dos aposentos estava permeado de santidade. Procurei no entulho e encontrei esta bolsa de tefilin!"

O soldado continuou: "Sobrevivi à guerra devido a muitos milagres, que atribuo ao fato de ter comigo o tefilin. Fui capturado e tornei-me prisioneiro de guerra. Recentemente, fui libertado, e estou agora a caminho de casa. Minha primeira parada foi para encontrar o Rebe e trazer-lhe seu tefilin."

"D'us certamente o recompensará por sua grande mitsvá. E quanto à grande alegria que me trouxe, insisto em que seja meu hóspede por alguns dias. Espere um momento, por favor, enquanto peço ao meu assistente para tomar as providências."

O Rebe falou com seu assistente e voltou à sala, mas o soldado não estava mais ali. O Rebe chamou o ajudante e disse-lhe: "Rápido, traga de volta o soldado que acaba de sair de minha sala!"

"Não vi ninguém sair da sala do Rebe" - respondeu o assistente.

 

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